Aires Almeida
Baltazar Torres é um dos artistas que surgiram na década de 90. A pouco e pouco as suas obras, que combinam pintura escultura e instalação, foram-se impondo e internacionalizando, apesar de percorrer um caminho solitário e independente. É professor na Faculdade de Belas Artes do Porto e na Universidade Católica, também no Porto. Colaboram consigo diariamente no seu atelier alguns dos seus ex-alunos.
Aceitou imediatamente ser entrevistado por "A Arte de Pensar" (que diz ter apreciado muito, pelo menos a avaliar pelas partes que leu), respondendo sempre num tom calmo mas interessado.
Decidiu ser artista ou apenas aconteceu?
Dei-me conta logo na escola primária que as pessoas apreciavam bastante os meus desenhos. Isso motivou-me muito e ficou-me desde aí a ideia de que essa seria a minha área. A partir daí concentrei-me na ideia de ser pintor. Claro que tive de estudar a sério e escolher as escolas que melhor me podiam preparar, nomeadamente a Soares dos Reis, no Porto. Isto introduziu-me num meio propício ao entusiasmo pela arte. Os meus interesses e conversas com os colegas acabavam por convergir para a arte e de gerar uma espécie de compromisso comigo mesmo e com os outros.
A partir de que momento, ou altura, se tornou efectivamente artista?
Senti que era artista quando fiz, em conjunto com outros colegas, algumas exposições colectivas, logo no 10.º ano, às quais muitas pessoas reagiam, embora às vezes um pouco escandalizadas. Isso foi sentido como uma fonte de estímulo que parecia confirmar o estatuto de artista.
Acredita que para se ser artista é necessária alguma formação especial ou isso é dispensável? Qual foi a sua formação?
Acho que é preciso ter formação especial, embora existam autodidactas na arte. Mas o autodidactismo é também uma forma de estudo, só que não académico. Não só é precisa uma formação académica forte a nível técnico e criativo, como também uma informação muito objectiva e precisa da história da arte e dos movimentos artísticos. A intuição e o instinto criativo existem em muitas pessoas, mas se isso não for muito trabalhado e devidamente orientado, acaba por se perder. Ora o estudo é precisamente isso: trabalhar e orientar o instinto.
Quanto à minha formação, como referi, comecei na Soares dos Reis e acabei por me licenciar em pintura na Faculdade de Belas Artes do Porto. A partir daí, foram diversas viagens direccionadas e muitas visitas a museus, galerias e exposições, assim como revistas da área, contactos com outros artistas, etc.
Já realizou várias exposições e muitas das suas obras foram adquiridas. Poderia destacar as principais exposições que fez e qual foi o destino de algumas das suas obras?
A minha primeira exposição foi, como seria de esperar, muito importante. Foi na Galeria Módulo, em 1988, ainda estudante de pintura na faculdade. Isso permitiu-me estar mais de perto em contacto com artistas com mais maturidade. Vendi os quadros todos, o que estranhamente me deixou decepcionado. Fiquei a pensar que eram demasiado vulgares. Por isso fiquei alguns anos sem pegar nos pincéis. Em 1999, na galeria Quadrado Azul, fiz a exposição "The Real Face of the Landscape", com pintura e escultura. Vendeu-se quase toda a exposição, mas desta vez não houve decepção, pois tinha então uma maturidade que não existia antes, ou seja, as peças exibidas tinham já um público especial que estava na expectativa do que eu ia apresentar. Houve depois uma exposição na Galeria Mário Sequeira, em Braga, no ano de 2000, que despoletou uma internacionalização do meu trabalho, pois apareceram galerias estrangeiras que quiseram apresentar fora de Portugal o que eu fazia. Depois expus individualmente em Berlim, onde foi editado um livro sobre o trabalho mais recente e seguiram-se as feiras de Colónia, a ARCO de Madrid, Bolonha e novamente Berlim. As obras foram adquiridas por particulares e por instituições como a Fundação Coca-Cola, de Madrid, o Banco Central Europeu, a Fundação Gulbenkian, a Culturgest, o CGAC, de Santiago de Compostela, a Fundação Salomon, de Annecy, entre outros.
Já pintou, fez escultura, instalações, etc. Afinal que tipo de artista é? Pintor, escultor?
Artista, apenas. Trabalho em vários media, para melhor veicular as minhas ideias.
Quando concebe ou realiza uma obra, fá-lo a pensar em quê ou em quem? No público em geral, num público especializado, em si próprio?
Penso só no público especializado, que poderá aceitar melhor ou pior a investigação plástica por mim desenvolvida nas peças apresentadas.
Isso significa que se submete ao que
pensa ser a opinião dos seus pares?
Significa que só se pode trabalhar para um público conhecedor. Eu não posso pensar que vou fazer uma exposição para um público que desconheça a arte contemporânea e as suas implicações sociais. Para nos entendermos com alguém, temos de falar uma língua comum.
Não concorda, então, com os que encaram a arte como uma espécie de linguagem universal?
Bom, a arte pode ser entendida por qualquer pessoa de qualquer parte do mundo, desde que haja uma compatibilidade cultural com o universo em que se insere o objecto observado.
Acha que a arte, nomeadamente a sua, é ou deve ser enquadrada por algum conceito de beleza?
Não. Ela pode ser atraente, mas pode também ser visualmente desagradável. Aquilo que mais importa é fazer passar um conceito, uma ideia, através de formas que possam ser adequadamente interpretadas.
Procura exprimir algum tipo de emoção através das suas obras?
As obras são sempre feitas de emoção e razão. Por exemplo, as obras de Mondrian são estruturalmente racionais, mas quando observadas ao pormenor vemos películas e velaturas de carácter emotivo. Não existem linhas rectas nos quadros de Mondrian, ao contrário do que muita gente pensa. São linhas com muitas rebarbas, imprecisões e hesitações. No meu trabalho não posso quantificar o grau de emoção e de razão, na medida em que estes dois aspectos são variáveis em intensidade. Nuns casos deixo que a razão se sobreponha ao aspecto emocional; noutros acontece o contrário.
O que acha que as pessoas podem encontrar nas suas obras? Há alguma intencionalidade nelas?
Há intencionalidade nelas. Para haver comunicação, a arte tem que dizer algo. A comunicação pode ser meramente visual, formal, conceptual, etc., mas é sempre comunicação. Compreender o que diz é compreender a obra de arte.
A arte serve para alguma coisa?
Serve para muitas coisas. Serve para expressar ideias, desenvolver conhecimentos, mudar os outros. Mas também é uma mercadoria que pode servir apenas como investimento, como paixão ou como divertimento. Até como forma de poder.
Mas acha que deveria mesmo servir para isso tudo?
Sim. Salvador Dali dizia que uma obra de arte é útil para taparmos uma fissura de uma parede da casa. Por que não?
Muitas pessoas e instituições estão dispostas a pagar bem pelas suas obras, como pelas obras de muitos outros artistas. Por que acha que isso acontece?
Em primeiro lugar porque apostam no trabalho artístico do autor em causa. Em segundo lugar, isso pode ser uma mais-valia financeira e de prestígio para a instituição. Para além de outros aspectos, como a genuína paixão pela arte.
Acha que a apreciação das obras de arte é apenas uma questão de gostos pessoais?
É uma questão de gostos pessoais mas, sobretudo, de gostos institucionais. Estabelecendo uma analogia com o caso da moda, também aí os gostos pessoais se baseiam em critérios que o chamado mundo da moda estabelece. No caso da arte é o mundo da arte.
Acha que qualquer coisa pode ser arte?
Acho que sim, desde que, embebida de um sentido artístico.
E como sabemos que está embebida de um sentido artístico?
É porque é concebida ou feita com esse fim, no contexto adequado.
Em que está neste momento a trabalhar?
Preparo neste momento exposições em Palma de Maiorca, Paris e Milão.