A Arte de Pensar (10.º ano), Vol. 1

Glossário: 10.º ano

a priori / a posteriori Conhecemos algo a priori quando o conhecemos sem recorrer à experiência. Por exemplo, para saber que a adição de 502 com 12 dá 514 não precisamos de recorrer à experiência. Mas para saber que a neve é branca temos de recorrer à experiência. Conhecemos algo a posteriori quando o conhecemos recorrendo à experiência.

abstracto Uma entidade sem localização espácio-temporal. "Abstracto" não quer dizer "vago e difícil de compreender".

absurdo 1. Uma frase declarativa sem valor de verdade (sem sentido). 2. Uma falsidade óbvia.

acção Acontecimento ao qual está associado um agente e acerca do qual é possível fazer uma descrição verdadeira que exiba a presença de uma intenção. Podemos distinguir o fazer do agir. Assim, será adequado dizer "as formigas estão a fazer um carreiro", mas não seria adequado dizer que esse "fazer um carreiro" é uma acção das formigas, já que o seu comportamento não resulta de quaisquer intenções.

acontecimento Ocorrência ou mudança no estado do mundo. Algo que sucede num determinado ponto do espaço e durante um certo período de tempo.

actos / omissões Distinção controversa que corresponde aproximadamente à diferença entre fazer algo e permitir que algo aconteça — por exemplo, entre matar e deixar morrer. Muitos deontologistas consideram esta distinção moralmente relevante e pensam, por exemplo, que em geral é mais grave matar do que deixar morrer. Os utilitaristas dos actos defendem que a distinção não tem uma importância moral fundamental. Pensam que, se as consequências de matar forem as mesmas do que as de deixar morrer, matar não é pior (nem melhor) que deixar morrer.

agente Aquele que age, aquele a quem é atribuída a acção.

agnóstico Aquele que suspende a crença em relação à existência de Deus: nem acredita que Deus existe nem que Deus não existe.

argumento a posteriori Um argumento em que pelo menos uma das suas premissas é a posteriori.

argumento a priori Um argumento em que todas as suas premissas são a priori.

argumento circular Argumento que pressupõe o que pretende demonstrar.

argumento cogente (ou bom) Um argumento sólido com premissas mais plausíveis do que a conclusão.

argumento Conjunto de proposições em que se pretende justificar ou defender uma delas, a conclusão, com base na outra ou nas outras, a que se chamam as premissas. Por exemplo: o aborto não é permissível (conclusão) porque a vida é sagrada (premissa).

argumento cosmológico Argumento que parte de uma característica particular do mundo para concluir que Deus existe — pois só a existência de Deus poderá explicar essa característica do mundo. O argumento estudado de S. Tomás de Aquino parte da premissa a posteriori de que tudo tem uma causa, para concluir que existe um ser (Deus) que é a causa de tudo.

argumento do desígnio Há dois tipos de argumentos do desígnio: 1) Baseados na ordem do mundo (nomológicos) e baseados na adequação das coisas a fins (teleológicos). O argumento estudado é um argumento teleológico, que se baseia numa analogia entre artefactos e o mundo para concluir que, tal como os artefactos têm um criador, também o mundo tem um criador: Deus.

argumento moral Na discussão sobre a existência de Deus, argumento que tem por base a ideia de que sem Deus a moral não é possível.

argumento ontológico Argumento a priori que parte da definição de "Deus" com o objectivo de estabelecer que Deus existe. O argumento estudado é o de S. Anselmo que parte da definição de "Deus" como aquele "ser maior do que o qual nada pode ser pensado" para concluir que Deus existe.

argumento por analogia Um argumento por analogia parte da comparação de duas coisas distintas; constatamos que são semelhantes em vários aspectos e concluímos que também são semelhantes em relação a outro aspecto. Por exemplo: Os seres humanos sentem dor quando são agredidos; os cães são como os seres humanos; logo, os cães também sentem dor quando são agredidos.

argumento sólido Um argumento válido com premissas verdadeiras.

ateu Aquele que acredita que Deus não existe.

autonomismo Em filosofia da arte é o nome dado à perspectiva segundo a qual o valor da arte é autónomo. De acordo com o autonomismo, a arte tem valor intrínseco.

autoridade O direito e o poder de dar ordens e de se fazer obedecer. Falar da autoridade do estado é falar do poder que o estado tem de interferir na vida dos seus cidadãos.

bem-estar O bem-estar de um indivíduo consiste naqueles aspectos da sua vida que a tornam boa para si.

bicondicional Uma proposição da forma "P se, e só se, Q".

cadeia causal Sequência encadeada de causas e efeitos.

caracterização A apresentação de informações importantes sobre a natureza de algo. Caracterizar a filosofia, por exemplo, é apresentar algumas das características importantes da filosofia.

cogência Um argumento é cogente (ou bom) quando é sólido e tem premissas mais plausíveis do que a conclusão.

cognitivismo estético Perspectiva filosófica acerca do valor da arte segundo a qual esta é valiosa porque proporciona conhecimento.

compatibilismo No debate sobre o livre-arbítrio, as teorias que defendem que o determinismo e o livre-arbítrio podem coexistir.

compatível / incompatível Um conjunto de estados de coisas é compatível quando todos os estados de coisas do conjunto podem ocorrer simultaneamente. E é incompatível quando não podem ocorrer simultaneamente. A compatibilidade / incompatibilidade é a contraparte metafísica das noções linguísticas de consistência / inconsistência.

conceito A noção filosófica de conceito é complexa, correspondendo aproximadamente aos conteúdos que constituem um pensamento. O pensamento de que Aristóteles é mortal, por exemplo, inclui os conceitos de Aristóteles e de mortalidade. Neste sentido do termo, praticamente qualquer palavra que faça parte de uma frase com sentido exprime um conceito. Gramaticalmente, contudo, e em termos mais tradicionais, um conceito é uma noção ou ideia geral. Neste caso, retomando o exemplo anterior, não se pode falar do conceito de Aristóteles, mas apenas do conceito de mortalidade. Neste sentido, só termos gerais, como "justiça", "vermelho" e "país" exprimem conceitos; termos como "Aristóteles", "Portugal" ou "Segunda Guerra Mundial" não exprimem conceitos.

conceito aberto Conceito cujas condições de aplicação estão constantemente sujeitas a correcção, de modo a alargar o seu uso a novos casos. Alguns filósofos pensam que o conceito de arte é aberto. Opõe-se a conceito fechado.

conclusão A proposição que se pretende provar, num argumento.

concreto Uma entidade com localização espácio-temporal. "Concreto" não quer dizer "com exactidão e fácil de compreender".

condição necessária G é uma condição necessária de F quando todos os F são G. Por exemplo, estar em Portugal é uma condição necessária para estar em Braga porque todas as pessoas que estão em Braga estão em Portugal. Q é uma condição necessária de P quando a condicional "Se P, então Q" é verdadeira.

condição suficiente F é uma condição suficiente de G quando todos os F são G. Por exemplo, estar em Braga é uma condição suficiente para estar em Portugal porque todas as pessoas que estão em Braga estão em Portugal. P é uma condição suficiente de Q quando a condicional "Se P, então Q" é verdadeira.

condicional Qualquer proposição da forma "Se P, então Q", ou formas análogas. Por exemplo, "Se Sócrates era ateniense, era grego".

consentimento tácito Acto de consentir ou aceitar algo sem o ter expressamente manifestado. Opõe-se a consentimento expresso. Por exemplo, quando se diz que quem cala consente, está-se a referir uma forma de consentimento tácito.

consequência O mesmo que conclusão.

consequencialismo Perspectiva que, na sua versão mais comum, nos diz que aquilo que devemos fazer é determinado unicamente pelo valor das consequências dos actos. Agir bem é assim fazer aquilo que tem melhores consequências.

consistência / inconsistência Um conjunto de proposições é consistente quando as proposições podem ser todas verdadeiras ao mesmo tempo — ainda que na realidade sejam todas falsas. Um conjunto de proposições é inconsistente quando as proposições não podem ser todas verdadeiras ao mesmo tempo. A consistência / inconsistência é a contraparte linguística das noções metafísicas de compatibilidade / incompatibilidade.

contra-argumento Um argumento que pretende refutar outro argumento.

contradição performativa Quando se afirma algo que é negado pelo acto de afirmar. Por exemplo, alguém que diga "Não estou a falar".

contradição Qualquer proposição da forma "P e não P", como "Sócrates era grego e não era grego".

contra-exemplo Um exemplo que refuta uma proposição universal. Por exemplo, a existência de um lisboeta infeliz refuta a proposição expressa pela frase "Todos os lisboetas são felizes".

contrato social Acordo original através do qual, segundo alguns filósofos, as pessoas aceitaram livremente submeter-se à autoridade do estado em troca de protecção.

contratualismo Em filosofia política chama-se contratualista a qualquer perspectiva que defenda que o estado tem origem num contrato social celebrado entre pessoas livres.

convencionalismo moral Perspectiva segundo a qual os factos morais são convenções instituídas por alguém. Tanto o relativismo moral como a teoria dos mandamentos divinos são teorias convencionalistas.

crente Aquele que acredita que Deus existe.

critério transubjectivo de valoração Critério para fazer juízos de valor que ultrapassa o ponto de vista de cada sujeito. Ao avaliarmos as coisas segundo critérios subjectivos, estamos a avaliá-las à luz dos nossos gostos e preferências pessoais. Para avaliar as coisas segundo critérios transubjectivos, devemos adoptar uma perspectiva imparcial. Pode-se dizer que tanto o utilitarismo como a ética kantiana nos propõem critérios transubjectivos de valoração.

crítica A avaliação cuidadosa da verdade de uma afirmação. Este sentido do termo não deve confundir-se com o sentido popular, em que "criticar" significa "dizer mal de algo ou alguém".

decadentismo Doutrina estética segundo a qual a arte está acima da moral, podendo mesmo ser imoral.

defesa do livre-arbítrio Resposta clássica ao problema do mal, segundo a qual Deus permite o mal para possibilitar um bem maior: a existência de livre-arbítrio.

definição A especificação da natureza de algo. Especificar a natureza de algo é dizer o que é esse algo. Por exemplo, podemos definir a água dizendo que é H2O. Mas nem todas as definições são explícitas, como neste exemplo. As definições podem também ser implícitas.

definição explícita Tipo de definição em que se recorre a condições necessárias e suficientes. Por exemplo, quando se define a água como H2O o que se quer realmente dizer é que ser H2O é uma condição necessária e suficiente para que algo seja água.

definição implícita Tipo de definição em que se recorre a exemplos ou ao uso. Por exemplo, podemos definir a água mostrando vários exemplos de porções de água dos rios, das garrafas, da chuva, etc. Ou podemos definir a noção de solteiro através do uso que fazemos da palavra "solteiro".

deontologia Quem defende uma ética deontológica acredita em restrições que nos proíbem de fazer certas coisas, como mentir ou matar, mesmo quando fazê-las teria melhores consequências.

determinismo Tese de que todos os acontecimentos estão causalmente determinados pelos acontecimentos anteriores e pelas leis da natureza.

determinismo radical No debate sobre o livre-arbítrio, as teorias que defendem que não temos livre-arbítrio, porque tudo está determinado.

deus teísta O ser omnipotente (que pode fazer tudo: todo-poderoso), omnisciente (que sabe tudo), sumamente bom (moralmente perfeito), criador e que é uma pessoa (é um agente e não uma força da natureza).

deveres indirectos Dizer que os nossos deveres morais para com os animais ou o ambiente são apenas indirectos é afirmar que os animais ou o ambiente não são em si moralmente importantes. É errado fazer certas coisas aos animais ou ao ambiente, mas apenas porque fazê-las levar-nos-ia a prejudicar aqueles que têm realmente importância moral em si — os seres humanos.

dilema de Êutifron Dilema apresentado pela primeira vez por Platão no diálogo Êutifron. Este dilema é um argumento contra a teoria dos mandamentos divinos. Podemos introduzi-lo através de uma pergunta como esta, onde X é um acto como matar, roubar ou mentir: X é errado porque Deus pensa que X é errado ou Deus pensa que X errado porque X é errado? Se optarmos pela segunda hipótese, concluímos que a teoria dos mandamentos é falsa, porque estamos a presumir que certas coisas são erradas independentemente do que Deus pensa sobre elas. Se optarmos pela primeira hipótese, temos de concluir que se Deus considerasse bom fazer coisas como matar, roubar ou mentir, então seria bom fazer essas coisas. Esta hipótese implica implausivelmente que a ética é arbitrária.

dogma Uma afirmação cuja verdade se deseja que seja aceite sem qualquer avaliação cuidadosa quanto à sua verdade.

egoísmo normativo Perspectiva segundo a qual devemos agir unicamente em função do nosso interesse.

egoísmo psicológico Perspectiva segundo a qual agimos sempre unicamente em função daquilo que julgamos ser do nosso interesse.

emotivismo Teoria segundo a qual não há quaisquer factos morais. Assim, os juízos morais são apenas expressões dos sentimentos de aprovação ou reprovação de cada um, não tendo por isso valor de verdade.

entimema Argumento em que uma ou mais premissas não foram explicitamente apresentadas.

epistemologia Disciplina central da filosofia que estuda os problemas mais gerais do conhecimento, incluindo a sua natureza, limites e fontes. Por exemplo, o que é realmente o conhecimento? Será que sabemos realmente algo, ou é tudo uma ilusão?

especismo Discriminação baseada na espécie.

estado A entidade política formada por uma população e um território geridos por um governo com o poder de interferir no comportamento dos seus membros.

estado de natureza O estado anterior à existência de uma sociedade politicamente organizada. Para alguns filósofos existiu um estado de natureza antes de se ter constituído a sociedade civil.

estatuto moral Um indivíduo ou uma entidade tem estatuto moral se é moralmente importante em si. É quase consensual que as pessoas têm estatuto moral, mas discute-se se os animais não humanos, os embriões humanos ou o ambiente o têm. Na ética kantiana, afirma-se que só as pessoas, concebidas como agentes racionais e autónomos, têm estatuto moral. Os utilitaristas pensam que todos os seres sencientes, e não apenas as pessoas, têm estatuto moral.

esteticismo Perspectiva filosófica sobre a arte segundo a qual esta tem valor em si e não é um meio para fim algum. É também conhecida como teoria da arte pela arte.

ética Disciplina central da filosofia que estuda a natureza do pensamento ético (metaética), os fundamentos gerais (ética normativa) e os problemas concretos da vida ética (ética aplicada). Por exemplo, em metaética estuda-se o problema de saber se os juízos éticos são relativos à cultura em que vivemos; em ética normativa estuda-se o problema de saber o que é o bem último; e em ética aplicada estuda-se a questão de saber se os animais não humanos têm importância moral.

experiência estética Um tipo específico de experiência que alegadamente só as coisas belas e as obras de arte são capazes de provocar em quem as aprecia. Nem todos os filósofos concordam com a ideia de que há experiências especificamente estéticas.

experiência mental Quando fazemos experiências mentais imaginamos situações, por vezes muito fantasiosas e idealizadas, com o objectivo de percebermos melhor certos aspectos de uma questão. Tanto os cientistas como os filósofos recorrem frequentemente a experiências mentais para testar ou desenvolver teorias.

explicação de acções Explica-se uma acção mostrando as razões que o agente teve para a realizar. As razões do agente são as crenças e os desejos que motivaram ou causaram a acção.

expressão Em filosofia da arte, a transmissão ou comunicação de sentimentos ou emoções.

extensão / intensão A extensão de um conceito ou propriedade é as coisas a que um conceito ou propriedade se aplica. Por exemplo, a extensão de "vermelho" são todos os objectos vermelhos. A intensão de um conceito é a propriedade que determina a extensão do conceito. Assim, a intensão do conceito de vermelho é a propriedade da vermelhidão.

falácia Um argumento que parece cogente mas não é. Um argumento pode parecer cogente por parecer sólido sem o ser, ou por parecer válido sem o ser, ou por parecer que tem premissas mais plausíveis do que a conclusão quando não as tem.

fatalismo Tese de que alguns acontecimentos são inevitáveis, independentemente do que possamos decidir ou fazer.

Crença com elevado grau de convicção na verdade de uma afirmação, sem razões que estabeleçam a verdade dessa convicção

fideísmo Teoria segundo a qual as crenças religiosas se baseiam unicamente na fé e não na razão.

filosofia da religião Disciplina filosófica que estuda os problemas metafísicos, epistemológicos e lógicos levantados pela religião. Por exemplo, será que Deus existe? Será legítimo acreditar que Deus existe sem ter provas? Será a existência de Deus compatível com a existência do mal?

finalidade (de uma acção) A razão pela qual se faz algo.

finalidade instrumental (de uma acção) Algo que fazemos para obter outra coisa.

finalidade última (de uma acção) Algo que fazemos em função de si mesmo.

forma significante Segundo alguns filósofos é aquilo que existe nas obras de arte, e apenas nelas, que não pode ser alterado, simplificado ou adaptado sem perder o seu interesse e o seu significado. É a forma significante que, alegadamente, provoca em nós emoções estéticas.

frase Sequência de palavras que podemos usar para fazer uma asserção ou uma pergunta, fazer uma ameaça, dar uma ordem, exprimir um desejo, etc.

hedonismo Perspectiva segundo a qual só o prazer é intrinsecamente bom e só a dor é intrinsecamente má. Tudo o que resto tem valor apenas na medida em que contribui para aumentar o prazer ou para reduzir a dor.

imitação Uma forma particular de representação. A imitação pode ser uma pintura figurativa, um gesto ou um conjunto de sons semelhantes ao que está a ser imitado.

imparcialidade É quase consensual que o ponto de vista ético se caracteriza por uma certa imparcialidade formal: avaliar de forma similar actos similares. Tanto o utilitarismo como a ética kantiana vão além desta ideia de imparcialidade, mas de forma diferente. Os utilitaristas dos actos pensam que devemos dar a mesma importância ao bem-estar de todos os indivíduos. Os defensores da ética kantiana defendem que devemos tratar todas as pessoas como fins.

imperativo categórico Segundo Kant, é o único princípio fundamental da moralidade e pode ser conhecido a priori. Este princípio é um imperativo porque se nos apresenta como uma obrigação; é categórico porque tal obrigação não depende de quaisquer desejos específicos do agente. Kant formulou-o de maneiras muito diferentes, de tal forma que se questiona se as fórmulas exprimem efectivamente o mesmo princípio. A fórmula da lei universal diz-nos que devemos agir segundo máximas que possamos querer universalizar. A fórmula do fim em si diz-nos que devemos tratar as pessoas como fins em si, e nunca como meros meios.

implicação Uma proposição implica outra quando é impossível a primeira ser verdadeira e a segunda falsa.

incompatibilismo No debate sobre o livre-arbítrio, as teorias que defendem que o determinismo e o livre-arbítrio não podem coexistir. O libertismo e o determinismo radical são duas dessas teorias.

incompatível / compatível Um conjunto de estados de coisas é compatível quando todos os estados de coisas do conjunto podem ocorrer simultaneamente. E é incompatível quando não podem ocorrer simultaneamente. A compatibilidade / incompatibilidade é a contraparte metafísica das noções linguísticas de consistência / inconsistência.

inconsistência / consistência Um conjunto de proposições é consistente quando as proposições podem ser todas verdadeiras ao mesmo tempo — ainda que na realidade sejam todas falsas. Um conjunto de proposições é inconsistente quando as proposições não podem ser todas verdadeiras ao mesmo tempo. A consistência / inconsistência é a contraparte linguística das noções metafísicas de compatibilidade / incompatibilidade.

intenção Segundo diversos filósofos, as intenções de um agente reduzem-se às crenças e desejos que explicam a suas acções. Outros filósofos entendem as intenções como estados mentais distintos, que não são redutíveis a crenças e desejos.

intensão / extensão A extensão de um conceito ou propriedade é as coisas a que um conceito ou propriedade se aplica. Por exemplo, a extensão de "vermelho" são todos os objectos vermelhos. A intensão de um conceito é a propriedade que determina a extensão do conceito. Assim, a intensão do conceito de vermelho é a propriedade da vermelhidão.

interpretação Interpretar um texto (ou uma obra de arte, ou um olhar) é compreender o seu significado e a articulação entre os seus diferentes aspectos.

juízo de valor Quando fazemos um juízo de valor estamos a avaliar positiva ou negativamente alguma coisa. Quando fazemos um juízo de facto, pelo contrário, pretendemos apenas descrever alguma coisa.

juízo estético Diz-se que os juízos acerca da arte e da beleza são estéticos.

justiça como equidade A teoria da justiça de Rawls. Os princípios da justiça são aqueles que seriam escolhidos numa situação de equidade — a posição original. Segundo Rawls, esses princípios dizem-nos que todos devem ter a maior liberdade compatível com uma idêntica liberdade para todos, e que as desigualdades sociais e económicas são aceitáveis apenas na medida em que resultem de uma igualdade de oportunidades e beneficiem os mais desfavorecidos.

liberdade moral Há actos que são eticamente opcionais: não é errado realizá-los, mas também não é obrigatório fazê-lo. Temos a liberdade moral de os realizar ou de não o fazer. Uma das críticas ao utilitarismo dos actos é a de que esta teoria, como nos diz que temos sempre a obrigação de realizar os actos que maximizam o bem, quase nos priva da liberdade moral.

libertismo No debate sobre o livre-arbítrio, as teorias que defendem que não há determinismo porque temos livre-arbítrio.

livre-arbítrio Capacidade para decidir (arbitrar) em liberdade.

lógica O estudo da validade e cogência da argumentação.

má-fé Na filosofia de Sartre, o acto de auto-engano, que consiste em fingir, para nós próprios, que não somos livres.

mal moral O mal causado pelos seres humanos, deliberadamente ou por negligência; por exemplo, homicídios e guerras.

mal natural O mal resulta de fenómenos naturais; por exemplo, cheias e furacões.

máxima Na ética de Kant, as máximas são princípios que nos indicam o motivo dos agentes. Para Kant o valor moral de uma acção depende da máxima que lhe subjaz.

maximin Princípio de escolha a aplicar em situações de ignorância. Se um agente não sabe o que acontecerá efectivamente se cada uma das opções disponíveis se realizar, deverá escolher a opção que tem o melhor pior resultado possível.

metafísica Disciplina central da filosofia que estuda a natureza última dos aspectos mais gerais da realidade. Por exemplo, será que temos livre-arbítrio? O que é o tempo? O que há de comum a todos os objectos azuis?

moralismo Em filosofia da arte é o nome dado à perspectiva segundo a qual a arte tem uma função moral.

negação Operador de formação de frases que inverte o valor de verdade das proposições, exprimindo-se geralmente em português com a palavra "não", entre outras.

objectivismo estético Perspectiva estética que defende a existência de propriedades estéticas nos próprios objectos, as quais em nada dependem dos sentimentos das pessoas que os apreciam. De acordo com o objectivismo a beleza está nas próprias coisas, pelo que não depende das opiniões de cada um. Opõe-se ao subjectivismo estético.

objectivismo moral Teoria segundo a qual a ética é objectiva. Pensar que a ética é objectiva é presumir que há factos morais que não dependem da perspectiva de qualquer sujeito ou que, pelo menos, os juízos morais podem ser justificados de forma racional e imparcial.

ontologia Disciplina da metafísica que estuda o problema de saber que tipos mais gerais de coisas há. Por exemplo, será que há realmente proposições? Ou serão apenas entidades mentais ou linguísticas? Haverá universais, ou apenas há particulares?

ónus da prova Se é razoável presumir que uma certa afirmação é verdadeira, o ónus da prova cabe a quem pensa que é falsa. Dado que é razoável presumir que o Pai Natal não existe, a pessoa que pensa que existe é que tem de provar que tem razão e que nós estamos enganados.

padrão do gosto Critério geral que permite distinguir o bom do mau gosto e que se forma a partir da observação daquilo que ao longo dos tempos costuma agradar às pessoas de diferentes lugares. Noção introduzida por David Hume.

paradoxo de Epicuro Formulação clássica do problema do mal atribuída ao filósofo Epicuro: "Ou Deus quer impedir o mal e não pode, ou pode mas não quer. Se quer mas não pode, é impotente. Se pode, mas não quer, é malévolo. Mas se quer e pode, de onde vem então o mal?".

parcimónia Uma teoria parcimoniosa explica o que tem a explicar sem introduzir complicações desnecessárias. A parcimónia é uma virtude das teorias, mas não garante que estas sejam verdadeiras.

parecença familiar Semelhança entre certas coisas que nos permite estabelecer uma relação de familiaridade entre si. Alguns filósofos pensam que há conceitos, como os de jogo e de arte, que não podem ser definidos explicitamente, mas que podem ser correctamente aplicados graças à noção de parecenças familiares.

petição de princípio (petitio principii) Argumento que pressupõe o que pretende demonstrar.

posição original Na filosofia política de Rawls, é a situação imaginária em que as pessoas, estando sob um véu de ignorância que garante a sua imparcialidade, escolhem os princípios de justiça correctos.

preconceito Uma opinião ou crença a favor da qual não temos qualquer bom argumento e sobre a qual nunca pensámos seriamente.

premissa A proposição (ou proposições) que se usa num argumento para provar uma dada conclusão.

princípio da diferença O princípio mais discutido da teoria da justiça de Rawls. Diz-nos que as desigualdades económicas e sociais são aceitáveis apenas na medida em que contribuem para melhorar a situação dos mais desfavorecidos.

princípio da maior felicidade O princípio ético fundamental no utilitarismo de Mill. Diz-nos que uma acção é correcta na medida em que tende a resultar no prazer e na ausência de dor; errada quando na medida em que tem a tendência inversa.

princípio do duplo efeito Princípio defendido por alguns deontologistas. Diz-nos que é permissível produzir um mau efeito de modo a obter um bom efeito se, e apenas se, o mau efeito não é pretendido de forma alguma e é proporcional ao bom efeito.

problema do mal Problema de conciliar a existência do Deus teísta com o mal existente no mundo.

proposição particular Qualquer proposição que comece com o termo "Algum" ou análogo. Por exemplo, "Alguns lisboetas são felizes".

proposição O pensamento verdadeiro ou falso expresso por uma frase declarativa.

proposição universal Qualquer proposição que comece com o termo "Todo", "Nenhum" ou análogo. Por exemplo, "Todos os lisboetas são portugueses".

prossilogismo Quando temos silogismos em cadeia, é o silogismo cuja conclusão é usada como premissa do silogismo seguinte.

provabilismo Teoria segundo a qual só é legítimo acreditar naquilo a favor do qual temos provas suficientes. A defesa clássica desta teoria é da autoria de William K. Clifford.

raciocínio Conjunto de proposições em que se pretende justificar ou defender uma delas, a conclusão, com base na outra ou nas outras, a que se chamam as premissas. Por exemplo: o aborto não é permissível (conclusão) porque a vida é sagrada (premissa).

redução ao absurdo (reductio ad absurdum) Forma de argumentação na qual se parte da negação do que se quer provar. Mostrando que desse pressuposto se segue uma falsidade óbvia (um absurdo), ou uma inconsistência, conclui-se negando o ponto de partida.

refutação Refutar uma ideia é mostrar que essa ideia é falsa. Refuta-se um argumento mostrando que a conclusão é falsa, que as premissas são falsas ou que o argumento é inválido.

regressão infinita Quando se justifica A em termos de B, B em termos de C, C em termos de D, etc., sem que essa cadeia de justificações seja esclarecedora, estamos perante uma regressão infinita.

relativismo cultural Teoria segundo a qual todos os factos morais são relativos a sociedades particulares. Assim, os factos morais resultam daquilo que uma dada sociedade aprova ou reprova, que pode não ser aquilo que outra sociedade aprova ou reprova. Quando uma sociedade aprova uma prática (como o infanticídio, por exemplo) e outra a reprova, não se pode dizer que uma delas tenha razão e a outra não.

representação Uma coisa representa outra se está em vez dela. A representação tanto pode ser verbal (as palavras) como figurativa (uma pintura ou uma dança).

responsabilidade negativa Quem acredita na responsabilidade negativa pensa que somos responsáveis não só pelos acontecimentos que provocámos, mas também pelos acontecimentos cuja ocorrência não evitámos, quando o poderíamos ter feito. Se uma pessoa morrer quando poderíamos ter feito algo para evitar que ela morresse, ao nada fazermos para evitar tal coisa tornámo-nos responsáveis pela sua morte. Esta ideia costuma ser atribuída ao utilitarista dos actos, que afirma a irrelevância da distinção entre actos e omissões.

responsabilidade Um agente é responsável por uma acção quando faz sentido louvá-lo ou censurá-lo por essa acção.

restrições deontológicas Proibições morais de realizar certos tipos de actos, como matar, torturar, roubar ou mentir. Quem acredita em restrições pensa que, pelo menos como regra geral, actos como esses não podem ser realizados nem para benefício do agente, nem para maximizar imparcialmente bem. O defensor de restrições deontológicas acredita, por exemplo, que seria errado matar intencionalmente uma pessoa inocente de modo a salvar duas pessoas inocentes, ainda que esse resultado pudesse ser o melhor.

ruído Todos os aspectos que não têm relevância argumentativa num texto argumentativo (ou elocução oral).

senciência Um ser senciente é aquele que tem a capacidade de sentir dor ou prazer.

sociedade civil A sociedade politicamente organizada. É equivalente ao estado e distingue-se geralmente do que alguns filósofos designam por estado de natureza

solidez Um argumento é sólido quando tem premissas verdadeiras e é válido.

subjectivismo estético Perspectiva segundo a qual os juízos estéticos apenas descrevem sentimentos pessoais. De acordo com o subjectivismo estético a beleza não está nas coisas, mas nos sujeitos que as apreciam. Opõe-se ao objectivismo estético.

subjectivismo moral Teoria segundo a qual a ética é subjectiva. Para o subjectivista os factos morais dizem apenas respeito aos sentimentos de aprovação ou reprovação de cada um, e os juízos morais não fazem mais que descrever esses sentimentos pessoais.

sujeito de uma vida Segundo Tom Regan, todos os sujeitos de uma vida têm direitos morais invioláveis. Os sujeitos de uma vida têm uma vida mental rica e complexa, com memórias, desejos e laços afectivos, mas precisam de ser agentes racionais e autónomos. Assim, muitos animais não humanos, e também os seres humanos mentalmente deficientes, imaturos ou debilitados, são sujeitos de uma vida.

superrogação Quando realiza um acto superrogatório, o agente sacrifica o seu bem-estar de modo algo a beneficiar os outros, sem que tivesse a obrigação de o fazer. Assim, ao agir de forma superrogatória, o agente vai além do seu dever moral, o que é especialmente louvável. Por exemplo, arriscar a vida para salvar estranhos pode ser considerado um acto superrogatório.

teísmo A doutrina que defende a existência do Deus teísta.

teísta O defensor do teísmo.

teodiceia Explicação da razão pela qual Deus permite a existência de mal no mundo.

teologia natural Tentativa de justificar a crença na existência de Deus através de provas ou argumentos.

teoria dos mandamentos divinos Teoria segundo a qual os factos morais são instituídos por Deus (ou pelos deuses). Assim, é Deus quem determina o que está certo ou errado, e nós devemos agir de acordo com a vontade divina.

teoria Um conjunto articulado de proposições que pretende explicar um dado fenómeno ou estabelecer um dado resultado.

universalizabilidade Propriedade de ser universalizável. Os juízos morais são universalizáveis, o que significa, por exemplo, que se afirmamos que um certo acto é errado, temos de afirmar que qualquer outro acto semelhante nos aspectos relevantes também é errado.

utilitarismo das regras Para quem defende esta teoria, um acto permissível é aquele que está de acordo com as regras morais ideais. Essas regras são aquelas que, se fossem aceites pela grande maioria dos membros da sociedade, maximizariam o bem-estar. Assim, o utilitarista das regras avalia os actos particulares em termos da promoção do bem-estar, mas de forma indirecta.

utilitarismo dos actos A forma mais comum de utilitarismo, que avalia os actos particulares directamente em termos da promoção do bem-estar. Segundo o utilitarista dos actos, um acto permissível é aquele que maximiza imparcialmente o bem-estar.

validade Propriedade que os argumentos têm quando é impossível, ou muitíssimo improvável, que as suas premissas sejam verdadeiras e a sua conclusão falsa. As proposições não podem ser válidas nem inválidas, só os argumentos podem sê-lo. As proposições são verdadeiras ou falsas.

valor de verdade A verdade ou falsidade de uma proposição.

valor instrumental Uma coisa tem valor instrumental quando é um meio para um fim que se considera valioso. Opõe-se a valor intrínseco.

valor intrínseco Uma coisa tem valor intrínseco quando tem valor por si, independentemente dos benefícios que dela possamos obter. Opõe-se a valor instrumental.

A Arte de Pensar (11.º ano)

Glossário: 11.° ano

a priori/a posteriori Conhecemos algo a priori quando o conhecemos sem recorrer à experiência. Por exemplo, para saber que a adição de 502 com 12 dá 514 não precisamos de recorrer à experiência. Mas para saber que a neve é branca temos de recorrer à experiência. Conhecemos algo a posteriori quando o conhecemos recorrendo à experiência.

abstracto Uma entidade sem localização espácio-temporal. "Abstracto" não quer dizer "vago e difícil de compreender".

absurdo 1. Uma frase declarativa sem valor de verdade (sem sentido). 2. Uma falsidade óbvia.

ad hominem Argumento falacioso em que se fazem ataques pessoais que não sustentam a conclusão desejada.

afirmação da consequente A forma argumentativa falaciosa P → Q, Q P.

afirmação descritiva Quando se pretende fazer corresponder a afirmação à realidade. Por exemplo, "Lisboa é uma cidade".

afirmação normativa Quando se pretende fazer corresponder a realidade à afirmação. Por exemplo, "Lisboa devia ser mais limpa".

âmbito de um operador A proposição ou proposições que esse operador afecta; por exemplo, na forma proposicional ¬(P ∨ Q), o âmbito da negação é a disjunção; mas na forma ¬P ∨ Q, o âmbito da negação é apenas P.

anomalia Na filosofia da ciência de Kuhn, uma anomalia é um enigma teórico ou prático que deveria ser resolvido dentro de um determinado paradigma, mas que resiste às tentativas de resolução.

antecedente A proposição P numa condicional com a forma "Se P, então Q".

aparência O modo como as coisas nos parecem ser. Alegadamente, aquilo as coisas nos parecem ser nem sempre é aquilo que as coisas são realmente. Por isso é importante distinguir a realidade das aparências.

apelo à piedade Qualquer argumento falacioso que invoca na premissa um sentimento piedoso que não sustenta a conclusão.

argumento a posteriori Um argumento em que pelo menos uma das premissas é a posteriori.

argumento a priori Um argumento em que todas as suas premissas são a priori.

argumento circular Argumento que pressupõe o que pretende demonstrar.

argumento cogente (ou bom) Um argumento sólido com premissas mais plausíveis do que a conclusão.

argumento Conjunto de proposições em que se pretende justificar ou defender uma delas, a conclusão, com base na outra ou nas outras, a que se chamam as premissas. Por exemplo: o aborto não é permissível (conclusão) porque a vida é sagrada (premissa).

argumento de autoridade Um argumento em que se invoca a opinião de um especialista. Por exemplo, "Kant defendeu que há experiência estética; logo, há experiência estética".

argumento dedutivo Um argumento em que é impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa, se for válido.

argumento indutivo Uma generalização ou uma previsão.

argumento por analogia Um argumento por analogia parte da comparação de duas coisas distintas; constatamos que são semelhantes em vários aspectos e concluímos que também são semelhantes em relação a outro aspecto. Por exemplo: Os seres humanos sentem dor quando são agredidos; os cães são como os seres humanos; logo, os cães também sentem dor quando são agredidos.

argumento sólido Um argumento válido com premissas verdadeiras.

bicondicional Uma proposição da forma "P se, e só se, Q". A bicondicional só é verdadeira se am-bas as proposições tiverem o mesmo valor de verdade.

cadeia causal Sequência encadeada de causas e efeitos.

caracterização A apresentação de informações importantes sobre a natureza de algo. Caracterizar a filosofia, por exemplo, é apresentar algumas das características importantes da filosofia.

causalidade É o tipo de relação que tem lugar quando um dado acontecimento origina, produz, determina ou dá origem a outro acontecimento: o primeiro é a causa do segundo; o segundo é o efeito do primeiro.

cepticismo Em epistemologia é a posição segundo a qual o conhecimento é impossível. Pirro de Élis, Sexto Empírico e Montaigne são alguns dos mais destacados defensores do cepticismo.

ciência normal Na filosofia da ciência de Kuhn, a ciência normal é a investigação conduzida à luz de um paradigma. O objectivo da ciência normal não é contestar o paradigma, mas desenvolvê-lo e torná-lo cada vez mais forte. Este objectivo é perseguido através da "resolução de enigmas", isto é, através da solução dos problemas detalhados a que o paradigma dá origem.

ciências empíricas Ciências cujas teorias podem ser confirmadas ou refutadas por dados observacionais. Com a excepção da matemática e da lógica, todas as ciências são empíricas.

cientismo Quem advoga o cientismo toma a ciência como única forma de conhecimento genuíno ou, pelo menos, como modelo de todo o conhecimento genuíno.

classe Uma colecção de coisas, como a colecção dos lisboetas.

classe complementar A classe complementar de uma classe é tudo o que não pertence a essa classe.

classe vazia Uma classe sem elementos.

clonagem Forma de reprodução assexuada na qual o organismo gerado tem o mesmo código genético que o seu progenitor.

coerência Um argumento é coerente quando as premissas e a conclusão não se contradizem. Um conjunto de proposições é coerente quando é consistente.

co-extensionalidade Dois termos são co-extensionais quando têm a mesma extensão. Por exemplo, os termos "habitante de Lisboa" e "habitante da capital portuguesa" têm a mesma extensão: as pessoas que vivem em Lisboa.

cogência Um argumento é cogente (ou bom) quando é sólido e tem premissas mais plausíveis do que a conclusão.

cogito Nome por que é conhecido o célebre argumento "penso, logo existo" de Descartes e que em latim é "cogito ergo sum".

compreensão (de um termo) O mesmo que intensão.

conceito A noção filosófica de conceito é complexa, correspondendo aproximadamente aos conteúdos que constituem um pensamento. O pensamento de que Aristóteles é mortal, por exemplo, inclui os conceitos de Aristóteles e de mortalidade. Neste sentido do termo, praticamente qualquer palavra que faça parte de uma frase com sentido exprime um conceito. Gramaticalmente, contudo, e em termos mais tradicionais, um conceito é uma noção ou ideia geral. Neste caso, retomando o exemplo anterior, não se pode falar do conceito de Aristóteles, mas apenas do conceito de mortalidade. Neste sentido, só termos gerais, como "justiça", "vermelho" e "país" exprimem conceitos; termos como "Aristóteles", "Portugal" ou "Segunda Guerra Mundial" não exprimem conceitos.

conclusão A proposição que se pretende provar, num argumento.

concreto Uma entidade com localização espácio-temporal. "Concreto" não quer dizer "com exactidão e fácil de compreender".

condição necessária G é uma condição necessária de F quando todos os F são G. Por exemplo, estar em Portugal é uma condição necessária para estar em Braga porque todas as pessoas que estão em Braga estão em Portugal. Q é uma condição necessária de P quando a condicional "Se P, então Q" é verdadeira.

condição suficiente F é uma condição suficiente de G quando todos os F são G. Por exemplo, estar em Braga é uma condição suficiente para estar em Portugal porque todas as pessoas que estão em Braga estão em Portugal. P é uma condição suficiente de Q quando a condicional "Se P, então Q" é verdadeira.

condicional Qualquer proposição da forma "Se P, então Q". Uma condicional só é falsa se a antecedente for verdadeira e a consequente falsa.

condições de verdade As circunstâncias que tornam uma proposição verdadeira ou falsa.

condições iniciais Numa explicação científica, as condições iniciais dizem respeito às circunstâncias reunidas quando o acontecimento a explicar ocorreu.

conectiva proposicional O mesmo que operador proposicional.

conexão necessária Há uma conexão necessária entre duas coisas quando uma não pode ocorrer sem a outra.

confirmação Um conjunto de dados confirma uma teoria ou hipótese quando aumenta a probabilidade de ela ser verdadeira. Por exemplo, a observação de tigres com riscas confirma a hipótese de que todos os tigres têm riscas.

conhecimento derivado Também chamado de conhecimento inferencial. Conhecemos algo derivadamente quando o nosso conhecimento é adquirido através de argumentos ou razões.

conhecimento por contacto Diz-se do tipo de conhecimento que temos quando conhecemos pessoalmente uma pessoa ou um local. Não confundir com aquilo que sabemos acerca de uma pessoa ou local.

conhecimento primitivo Também chamado de conhecimento não-inferencial. Conhecemos algo primitivamente quando o conhecemos directamente, por exemplo, através dos sentidos.

conhecimento proposicional Também chamado saber-que; é o tipo de conhecimento que temos quando sabemos que uma certa proposição é verdadeira.

conjunção Uma proposição da forma "P e Q". Uma conjunção só é verdadeira se ambas as conjuntas forem verdadeiras.

conjunção constante Há uma conjunção constante entre dois eventos A e B se sempre que ocorre um deles, o outro ocorre também.

conjuntas As proposições que formam uma conjunção.

consequência O mesmo que conclusão.

consequente A proposição Q numa condicional com a forma "Se P, então Q".

consistência/inconsistência Um conjunto de proposições é consistente quando as proposições podem ser todas verdadeiras ao mesmo tempo — ainda que na realidade sejam todas falsas. Um conjunto de proposições é inconsistente quando as proposições não podem ser todas verdadeiras ao mesmo tempo. A consistência / inconsistência é a contraparte linguística das noções metafísicas de compatibilidade / incompatibilidade.

constantes lógicas Os símbolos →, ↔, ∧, ∨ e ¬. Contrastam com as variáveis proposicionais.

conteúdo empírico As afirmações sem conteúdo empírico, como "Portugal vai ganhar ou não vai ganhar", não podem ser refutadas pela observação e em geral nada dizem sobre o mundo. Quanto mais conteúdo empírico tem uma afirmação, mais informativa ela é. Por exemplo, a afirmação "Portugal vai ganhar por 2-0" tem mais conteúdo empírico do que a afirmação "Portugal vai ganhar".

contra-argumento Um argumento que pretende refutar outro argumento.

contradição Qualquer proposição da forma "P e não P", como "Sócrates era grego e não era grego".

contra-exemplo Um exemplo que refuta uma proposição universal. Por exemplo, um cisne que não seja branco é um contra-exemplo à proposição expressa por "Todos os cisnes são brancos".

contraposição Um argumento da forma P → Q Q → P.

conversão Na lógica aristotélica, converte-se uma proposição trocando a ordem dos termos predicado e sujeito. Por exemplo, "Alguns filósofos são sábios" é convertida em "Alguns sábios são filósofos".

corroboração Uma teoria fica corroborada quando sobrevive a tentativas de a refutar. O facto de uma teoria estar corroborada significa apenas que é possível que seja verdadeira, mas não significa que, provavelmente, terá sucesso quando enfrentar novas tentativas de refutação.

crença O mesmo que convicção. Por exemplo, acreditar que a Lua é um satélite natural é ter a crença de que a Lua é um satélite natural.

crença básica Uma crença é básica quando não é justificada por outras crenças. Uma crença básica não é inferida de outras crenças.

crença não básica Uma crença é não básica quando é justificada por outras. Uma crença não básica é inferida de outras crenças.

crítica A avaliação cuidadosa da verdade de uma afirmação. Este sentido do termo não deve confundir-se com o sentido popular, em que "criticar" significa "dizer mal de algo ou alguém".

definição A especificação da natureza de algo. Especificar a natureza de algo é dizer o que é esse algo. Por exemplo, podemos definir a água dizendo que é H2O. Mas nem todas as definições são explícitas, como neste exemplo. As definições podem também ser implícitas.

definição explícita Tipo de definição em que se recorre a condições necessárias e suficientes. Por exemplo, quando se define a água como H2O o que se quer realmente dizer é que ser H2O é uma condição necessária e suficiente para que algo seja água.

definição implícita Tipo de definição em que se recorre a exemplos ou ao uso. Por exemplo, podemos definir a água mostrando vários exemplos de porções de água dos rios, das garrafas, da chuva, etc. Ou podemos definir a noção de solteiro através do uso que fazemos da palavra "solteiro".

democracia Um sistema de governação do povo, pelo povo (democracia directa) ou pelos seus representantes (democracia representativa), e para o povo.

democracia agregativa Uma democracia em que a vida política se centra nas eleições e os cidadãos não participam nos processos de decisão.

democracia deliberativa Uma democracia em que a vida política se centra na discussão e os cidadãos, além de votar nas eleições, participam nos processos de decisão.

derivação Um raciocínio rigoroso que estabelece passo a passo a validade de uma dada forma lógica.

dilema Um argumento da forma P ∨ Q, P → R, Q → R R.

disjunção Uma proposição da forma "P ou Q". Uma disjunção inclusiva só é falsa se ambas as disjuntas forem falsas.

disjunção exclusiva Uma proposição da forma "ou P ou Q". Uma disjunção exclusiva só é verdadeira se as disjuntas tiverem valores de verdade diferentes.

disjuntas As proposições que formam uma disjunção.

distribuição Na lógica aristotélica, diz-se que um termo está distribuído quando abrange todos os membros da classe a que se aplica.

dúvida metódica Nome por que é conhecido o método proposto por Descartes para procurar o conhecimento tão seguro de que nem os cépticos possam duvidar. A ideia é duvidar de tudo o que seja possível duvidar até encontrar algo de que não possamos duvidar.

eliminação da conjunção Um argumento da forma P ∧ Q P.

empirismo Perspectiva epistemológica defendida por filósofos como Locke, Berkeley e Hume, segundo a qual todo o nosso conhecimento substancial tem origem na experiência.

entimema Argumento em que uma ou mais premissas não foram explicitamente apresentadas.

epistemologia Disciplina central da filosofia que estuda os problemas mais gerais do conhecimento, incluindo a sua natureza, limites e fontes. Por exemplo, o que é realmente o conhecimento? Será que sabemos realmente algo, ou é tudo uma ilusão?

equivalência Duas formas proposicionais são equivalentes quando têm as mesmas condições de verdade. O mesmo que bicondicional.

estatuto moral Um indivíduo ou uma entidade tem estatuto moral se é moralmente importante em si. É quase consensual que as pessoas têm estatuto moral, mas discute-se se os animais não humanos, os embriões humanos ou o ambiente o têm.

ética antropocêntrica Teoria ética ambiental segundo a qual só os seres humanos têm valor intrínseco.

ética da vida senciente Teoria ética ambiental segundo a qual todos os seres sencientes, humanos ou não, têm valor intrínseco.

ética da vida Teoria ética ambiental segundo a qual todos os seres vivos possuem valor intrínseco.

ética Disciplina central da filosofia que estuda a natureza do pensamento ético (metaética), os fundamentos gerais (ética normativa) e os problemas concretos da vida ética (ética aplicada). Por exemplo, em metaética estuda-se o problema de saber se os juízos éticos são relativos à cultura em que vivemos; em ética normativa estuda-se o problema de saber o que é o bem último; e em ética aplicada estuda-se a questão de saber se os animais não humanos têm importância moral.

eugenia Conjunto de práticas que visam o aperfeiçoamento genético de uma espécie.

experiência mental Quando fazemos experiências mentais imaginamos situações, por vezes muito fantasiosas e idealizadas, com o objectivo de percebermos melhor certos aspectos de uma questão. Tanto os cientistas como os filósofos recorrem frequentemente a experiências mentais para testar ou desenvolver teorias.

experimentação A experimentação consiste em conceber dispositivos de maneira a observar o que ocorre em circunstâncias muito específicas. Recorre-se à experimentação para testar teorias científicas.

explanandum O acontecimento ou lei a explicar.

explanans A informação apresentada para explicar um acontecimento ou lei .

expressão canónica A expressão canónica de uma condicional, por exemplo, é "Se P, então Q", contrastando com outros modos de exprimir a condicional, por exemplo, "Q, se P" e "P somente se Q".

extensão /intensão A extensão de um conceito ou propriedade é as coisas a que um conceito ou propriedade se aplica. Por exemplo, a extensão de "vermelho" são todos os objectos vermelhos. A intensão de um conceito é a propriedade que determina a extensão do conceito. Assim, a intensão do conceito de vermelho é a propriedade da vermelhidão.

factivo Diz-se que o conhecimento é factivo porque não se podem conhecer falsidades.

falácia da circularidade O mesmo que petição de princípio.

falácia da ilícita maior Um silogismo no qual o termo maior está distribuído na conclusão mas não na premissa.

falácia da ilícita menor Um silogismo no qual o termo menor está distribuído na conclusão mas não na premissa.

falácia das premissas exclusivas Um silogismo no qual nenhuma das premissas é afirmativa.

falácia do médio não distribuído Um silogismo no qual o termo médio não está distribuído.

falácia dos quatro termos Um argumento que parece silogístico mas não o é porque tem quatro termos e não três apenas.

falácia existencial Um silogismo com duas premissas universais e conclusão particular.

falácia formal Uma falácia que resulta exclusivamente da forma lógica.

falácia informal Uma falácia que não resulta exclusivamente da forma lógica.

falácia Um argumento que parece cogente mas não é. Um argumento pode parecer cogente por parecer sólido sem o ser, ou por parecer válido sem o ser, ou por parecer que tem premissas mais plausíveis do que a conclusão quando não as tem.

falsidade lógica Uma proposição falsa em todas as circunstâncias logicamente possíveis.

falsificabilidade Propriedade de ser falsificável. Uma hipótese ou teoria é falsificável quando é possível refutá-la através de dados empíricos.

falsificacionismo Perspectiva do método científico que concebe as teorias como conjecturas e sublinha a necessidade de as submeter a tentativas de refutação ou falsificação.

falso dilema Qualquer argumento falacioso baseado numa disjunção falsa que parece verdadeira.

fertilização in vitro Técnica de reprodução na qual a fecundação é produzida em laboratório. O embrião é depois implantado no útero da mulher. Também conhecida por FIV.

finalidade instrumental Uma acção que tem como fim outra coisa que não ela mesma.

finalidade última Uma acção que não tem outro fim que não ela mesma.

forma proposicional composta Uma forma proposicional que contém operadores verofuncionais, como P → Q.

forma proposicional simples Uma forma proposicional que não contém quaisquer operadores verofuncionais, como P.

frase Sequência de palavras que podemos usar para fazer uma asserção ou uma pergunta, fazer uma ameaça, dar uma ordem, exprimir um desejo, etc.

fundacionalismo A perspectiva acerca da justificação do conhecimento segundo a qual as nossas crenças se apoiam num número reduzido de crenças básicas. Essas crenças básicas constituem, assim, o fundamento de todo o conhecimento.

génio maligno Hipótese introduzida por Descartes, segundo a qual existe uma espécie de deus enganador que, sem o sabermos, manipula os nossos pensamentos. Chama-lhe génio porque o seu poder é idêntico ao de um deus, mas não é um deus porque revela maldade ao querer enganar-nos. Com o génio maligno Descartes procura dramatizar a posição dos cépticos contra o conhecimento.

IA forte Perspectiva segundo a qual um computador apropriadamente programado poderá pensar e ter uma mente.

IA fraca Perspectiva segundo a qual um computador apropriadamente programado poderá simular processos mentais e ajudar-nos a compreender a mente, embora não pense realmente e não tenha uma mente.

ideias As ideias são vistas por muitos filósofos como conteúdos mentais subjectivos. David Hume defende que as ideias, tal como as impressões, são percepções e que todas as ideias são cópias das impressões. Hume pensa que a principal diferença entre as ideias e as impressões é que aquelas são mais intensas e vívidas do que estas.

ideias claras e distintas Segundo Descartes, uma ideia clara e distinta é uma ideia que se apresenta com tal evidência ao nosso espírito que não podemos duvidar da sua verdade. A clareza e distinção é, para ele, o critério que nos permite identificar as crenças verdadeiras.

implicação Uma proposição implica outra quando é impossível a primeira ser verdadeira e a segunda falsa.

impressões Os resultados imediatos da estimulação dos nossos sentidos pelos objectos exteriores, que consistem em imagens não interpretadas da nossa consciência. David Hume considerava que as impressões tanto podiam ser sensações externas (sensações auditivas, visuais, etc.) como sentimentos internos (emoções e desejos) e que todo o conteúdo da nossa mente — as percepções — era constituído apenas por impressões e ideias.

incomensurabilidade Propriedade de duas ou mais coisas não serem comparáveis. Na sua filosofia da ciência, Kuhn defende que os paradigmas são incomensuráveis. Isto significa que não podemos compará-los de maneira a concluir que, objectivamente, um deles é melhor ou está mais próximo da verdade do que o outro.

inconsistência/consistência Um conjunto de proposições é consistente quando as proposições podem ser todas verdadeiras ao mesmo tempo — ainda que na realidade sejam todas falsas. Um conjunto de proposições é inconsistente quando as proposições não podem ser todas verdadeiras ao mesmo tempo. A consistência/inconsistência é a contraparte linguística das noções meta-físicas de compatibilidade/incompatibilidade.

indubitabilidade A característica daquilo acerca do qual não somos capazes de duvidar.

indução Uma generalização ou uma previsão; nas induções válidas, a verdade das premissas torna provável a verdade da conclusão, mas não a garante.

indutivismo Perspectiva do método científico que concebe as teorias científicas como generalizações realizadas a partir dos dados observacionais.

infalibilidade A característica daquilo que não pode ser falso. Uma crença é infalível se não pode ser falsa.

inferência imediata Na lógica aristotélica, um argumento com uma só premissa.

inspector de circunstâncias Um dispositivo gráfico que permite determinar se a forma lógica de um argumento proposicional verofuncional é ou não válida.

intensão/extensão A extensão de um conceito ou propriedade é as coisas a que um conceito ou propriedade se aplica. Por exemplo, a extensão de "vermelho" são todos os objectos vermelhos. A intensão de um conceito é a propriedade que determina a extensão do conceito. Assim, a intensão do conceito de vermelho é a propriedade da vermelhidão.

introdução da conjunção Um argumento da forma seguinte: P, Q P ∧ Q.

introdução da disjunção Um argumento da forma P ?P Q.

inversão da condicional A forma argumentativa falaciosa P → Q Q → P.

irracionalismo A atitude de rejeição da razão. O irracionalismo distingue-se do não-racionalismo: diz-se que uma crença ou acção são irracionais quando não estão racionalmente justificadas; diz-se que uma crença ou acção são não-racionais quando são insusceptíveis de ser racionalmente justificadas.

justificação Ter justificação para acreditar em algo é ter boas razões a favor da verdade dessa crença.

lei da natureza Uma afirmação universal que serve para explicar e prever o comportamento dos objectos naturais.

Leis de De Morgan Qualquer argumento da forma ¬(P ∨ Q) ¬P ∧ ¬Q ou ¬(P ∧ Q) P ∨ Q.

lógica aristotélica A lógica formal desenvolvida por Aristóteles, que contempla a lógica silogística, a teoria da conversão e a silogística modal.

lógica formal O estudo dos aspectos da argumento que dependem exclusivamente da forma lógica. Tanto a lógica proposicional como a lógica silogística são lógicas formais.

lógica informal O estudo dos aspectos da argumentação que não dependem exclusivamente da forma lógica.

lógica O estudo da validade e cogência da argumentação.

lógica proposicional O estudo da argumentação válida que depende exclusivamente de operadores proposicionais.

lógica silogística O estudo da argumentação silogística.

má-fé Na filosofia de Sartre, o acto de auto-engano, que consiste em fingir, para nós próprios, que não somos livres.

manipulação Manipular alguém é fazer essa pessoa aceitar ou fazer algo sem avaliar cuidadosamente as coisas por si.

martelo semântico O símbolo , que significa "logo".

martelo sintáctico O símbolo , que significa que a fórmula à direita é derivável das fórmulas à esquerda, por exemplo: P ∧ Q P.

metafísica Disciplina central da filosofia que estuda a natureza última dos aspectos mais gerais da realidade. Por exemplo, será que temos livre-arbítrio? O que é o tempo? O que há de comum a todos os objectos azuis?

modelo nomológico Modelo de explicação científica. As explicações de acontecimentos que obedecem a este modelo mostram que a ocorrência de um acontecimento seria de esperar, dado que estavam reunidas certas condições e dadas certas leis da natureza. De acordo com este modelo, explicar uma lei é mostrar que ela resulta de leis mais gerais e profundas.

modus ponens Um argumento da forma P → Q, P Q.

modus tollens Um argumento da forma P → Q, Q P.

negação da antecedente A forma argumentativa falaciosa P → Q, ¬P ¬Q.

negação da condicional Um argumento da forma (P → Q) P ∧ ¬Q.

negação dupla Um argumento da forma ¬¬P P.

negação Qualquer proposição da forma "não P". Uma negação só é verdadeira se a proposição de partida for falsa.

objectividade Na filosofia da ciência, afirmar a objectividade do conhecimento científico é pensar que as teorias cientificas são verdadeiras ou falsas independentemente do contexto em que são concebidas ou daquilo que as pessoas pensam a seu respeito. A verdade ou falsidade de uma teoria é determinada pela realidade: uma teoria verdadeira descreve correctamente a realidade; se não o fizer, é falsa.

obversão Na lógica aristotélica, obverte-se uma proposição mudando na conclusão a qualidade da premissa, usando como termo predicado o complemento do termo predicado da premissa. Por exemplo, "Todos os seres humanos são mortais" é obvertida em "Nenhum ser humano é imortal".

ontologia Disciplina da metafísica que estuda o problema de saber que tipos mais gerais de coisas há. Por exemplo, será que há realmente proposições? Ou serão apenas entidades mentais ou linguísticas? Haverá universais, ou apenas há particulares?

operador comutativo Um operador no qual a ordem das proposições pode ser invertida sem afectar os valores de verdade. Por exemplo, a conjunção é comutativa, mas a condicional não é.

operador principal O operador de maior âmbito. Por exemplo, na forma proposicional ¬(P ∨ Q), o operador principal é a negação; na forma ¬P ∨ Q, o operador principal é a disjunção.

operador proposicional binário Um operador proposicional que se aplica a duas proposições, como a conjunção.

operador proposicional Uma expressão que se pode acrescentar a uma proposição ou proposições, formando assim novas proposições. Por exemplo, "não" é um operador proposicional porque podemos acrescentá-lo à proposição expressa pela frase "A neve é bonita" e obtemos a proposição expressa pela frase "A neve não é bonita".

operador proposicional unário Um operador proposicional que se aplica a uma proposição apenas, como a negação.

operador proposicional verofuncional Um operador proposicional é verofuncional quando o valor de verdade de uma proposição com esse operador é inteiramente determinado pelo valor de verdade da proposição ou proposições sem esse operador. Por exemplo, "não" é um operador verofuncional porque o valor de verdade de "A neve não é bonita" é inteiramente determinado pelo valor de verdade de "A neve é bonita".

paradigma Na filosofia da ciência de Kuhn, um paradigma assenta numa teoria científica poderosa, reflecte pressupostos metafísicos e especifica toda uma maneira de fazer ciência dentro de um certo domínio de investigação durante um determinado período.

percepção O modo como tomamos consciência dos objectos através dos nossos cinco sentidos é a percepção.

persuasão Persuadir alguém é fazer essa pessoa mudar de ideias ou fazê-la agir de maneira diferente do que agia antes.

persuasão racional Persuadir racionalmente alguém é fazer essa pessoa aceitar ou fazer algo mostrando-lhe as razões a favor disso.

petição de princípio (petitio principii) Argumento que pressupõe o que pretende demonstrar.

petitio principii Uma petição de princípio.

premissa A proposição (ou proposições) que se usa num argumento para provar uma dada conclusão.

proposição particular afirmativa Qualquer proposição da forma "Alguns A são B".

proposição particular negativa Qualquer proposição da forma "Alguns A não são B".

proposição particular Qualquer proposição que comece com o termo "Algum" ou análogo. Por exemplo, "Alguns lisboetas são felizes".

proposição Pensamento verdadeiro ou falso expresso por uma frase declarativa.

proposição universal afirmativa Qualquer proposição da forma "Todos os A são B".

proposição universal negativa Qualquer proposição da forma "Nenhuns A são B".

proposição universal Qualquer proposição que comece com o termo "Todo", "Nenhum" ou análogo. Por exemplo, "Todos os lisboetas são portugueses".

propriedade Uma qualidade ou característica que algo tem. Por exemplo, Aristóteles tinha a propriedade de viver em Atenas.

prossilogismo Quando temos silogismos em cadeia, é o silogismo cuja conclusão é usada como premissa do silogismo seguinte.

qualidade (de uma proposição) Na lógica aristotélica, uma proposição tem uma de duas qualidades: é negativa ou afirmativa.

quantidade (de uma proposição) Na lógica aristotélica, uma proposição tem uma de duas quantidades: é universal ou particular.

quantificador existencial "Alguns".

quantificador Um operador que gera proposições a partir de termos gerais, indicando a quantidade de objectos que pertencem à classe referida por esses termos. Por exemplo, "todos", "nenhum", "a maioria", etc., geram proposições como "Todas as cartas de amor são ridículas".

quantificador universal "Todos" e "Nenhuns".

raciocínio Conjunto de proposições em que se pretende inferir uma delas, a conclusão, a partir da outra ou das outras, a que se chamam as premissas. Por exemplo: o aborto não é permissível (conclusão) porque a vida é sagrada (premissa).

racionalidade As nossas crenças ou acções são racionais quando se apoiam em critérios de aceitação que resistem à discussão livre.

racionalidade prática A racionalidade das nossas acções ou das decisões que lhes estão associadas.

racionalidade teórica A racionalidade das nossas crenças ou das justificações que as apoiam.

racionalismo Em epistemologia é a perspectiva, defendida por filósofos como Descartes e Leibniz, segundo a qual a razão tem um papel fundamental na aquisição do conhecimento.

realidade Tudo o que existe. Por vezes as coisas parecem-nos ser o que não são, pelo que se devem distinguir as aparências da realidade.

redução ao absurdo (reductio ad absurdum) Forma de argumentação na qual se parte da negação do que se quer provar. Mostrando que desse pressuposto se segue uma falsidade óbvia (um absurdo), ou uma inconsistência, conclui-se negando o ponto de partida.

refutação Um conjunto de dados refuta uma hipótese ou teoria quando mostra que ela é falsa. Por exemplo, a observação de um cisne negro refuta a hipótese de que todos os cisnes são brancos.

regra Em lógica formal, uma forma argumentativa válida simples que é usada para justificar argumentos mais complexos.

regressão infinita Quando se justifica A em termos de B, B em termos de C, C em termos de D, etc., sem que essa cadeia de justificações seja esclarecedora, estamos perante uma regressão infinita.

ruído Todos os aspectos que não têm relevância argumentativa num texto argumentativo (ou elocução oral).

saber-fazer Diz-se do tipo de conhecimento requerido para a execução de certas actividades, como saber tocar piano ou andar de bicicleta.

saber-que O mesmo que conhecimento proposicional.

senciência Um ser senciente é aquele que tem a capacidade de sentir dor ou prazer.

senso comum Conhecimento relativamente superficial e acentuadamente prático que é partilhado numa certa cultura e transmitido de forma acrítica de geração em geração.

sentido objectivo Uma actividade que tem realmente sentido.

sentido subjectivo Uma actividade que tem sentido do ponto de vista de quem age.

silogismo disjuntivo Um argumento da forma P ∨ Q, ¬P Q.

silogismo hipotético Um argumento da forma P → Q, Q → R P → R.

silogismo Um argumento com duas premissas e uma conclusão, que contém unicamente proposições do tipo A, E, I ou O e que contém unicamente três termos: o termo menor, que é o sujeito da conclusão e que se repete numa das premissas e só numa; o termo maior, que é diferente do termo menor e é o predicado da conclusão, repetindo-se na outra premissa e só nela; um só termo médio, que ocorre nas duas premissas e só nelas.

solidez Um argumento é sólido quando tem premissas verdadeiras e é válido.

tabela de verdade Dispositivo gráfico que permite exibir as condições de verdade de uma forma proposicional dada.

tautologia O mesmo que verdade lógica.

teoria científica Um sistema de afirmações, entre as quais muitas vezes se destacam leis da natureza, que é usado para explicar e prever certos acontecimentos e fenómenos.

teoria da verdade Uma teoria que tenta explicar a natureza da verdade, tendo como objectivo responder à pergunta "O que é a verdade?" e procurando mostrar o que todas as afirmações ou proposições verdadeiras têm em comum.

teoria do conhecimento O mesmo que epistemologia.

termo geral Um item linguístico que designa os membros de uma dada classe, como "lisboetas".

termo predicado Na lógica aristotélica, o segundo termo de qualquer proposição de tipo A, E, I ou O.

termo singular Um termo como "Lisboa", que se opõe a termos gerais como "lisboetas".

termo sujeito Na lógica aristotélica, o primeiro termo de qualquer proposição de tipo A, E, I ou O.

validade Propriedade que os argumentos têm quando é impossível (dedução), ou muitíssimo improvável (não dedução), que as suas premissas sejam verdadeiras e a sua conclusão falsa. As proposições não podem ser válidas nem inválidas, só os argumentos podem sê-lo. As proposições são verdadeiras ou falsas.

valor de verdade A verdade ou falsidade de uma proposição.

valor instrumental Uma coisa tem valor instrumental quando é um meio para um fim. Opõe-se a valor intrínseco.

valor intrínseco Uma coisa tem valor intrínseco quando tem valor por si, independentemente dos benefícios que dela possamos obter. Opõe-se a valor instrumental.

valor objectivo Algo que tem realmente valor.

valor subjectivo Algo que tem valor do ponto de vista de alguém.

variável de fórmula Na lógica proposicional, um símbolo (como A, B, C, etc.) que pode ser substituído por qualquer proposição, composta ou simples.

variável proposicional Na lógica formal, o símbolo (P, Q, R, etc.) que representa lugares vazios que só podem ser ocupados por proposições.

verdade contingente Uma verdade que podia ter sido falsa.

verdade lógica Uma proposição verdadeira em todas as circunstâncias logicamente possíveis. Chama-se por vezes "tautologias" às verdades lógicas.

verdade necessária Uma verdade que não podia ter sido falsa.

verificabilidade Uma afirmação é verificável quando podemos determinar o seu valor de verdade através da observação.

verosimilhança Na filosofia da ciência de Popper, uma teoria é mais verosímil ou está mais próxima da verdade do que outra se implica mais verdades ou menos falsidades do que esta.

virtude Uma qualidade boa de carácter, que se determina o modo como as pessoas agem. Por exemplo, a honestidade é uma virtude.