Uma acção intencional é aquela que uma pessoa pratica e pretende praticar — como quando desço para o andar de baixo ou digo algo que pretendo dizer. Uma acção básica é aquela que a pessoa faz directa e intencionalmente, sem levar a cabo nenhuma outra acção intencional. Ir de Oxford para Londres é uma acção não básica, porque a levo a cabo fazendo outras coisas — indo até à estação, entrando no comboio, etc. Mas apertar a minha mão ou mexer a minha perna ou mesmo dizer "isto" são acções básicas. Faço as directamente, sem levar a cabo outro acto intencional. (Com certeza que certos acontecimentos têm de ocorrer no meu corpo — os meus nervos têm de transmitir impulsos — para que eu consiga realizar uma acção básica. Mas estes não são acontecimentos que eu leve a cabo intencionalmente. Limitam se a acontecer — posso nem sequer saber da sua existência). Por poder básico entendo o poder para realizar uma acção básica. Nós, seres humanos, temos poderes básicos semelhantes entre nós. Confinam-se geralmente ao poder de pensar e a poderes relativos à pequena porção de matéria a que cada um de nós chama o seu corpo. Só posso produzir efeitos no mundo fora do meu corpo fazendo algo de intencional com o meu corpo. Posso abrir a porta agarrando a maçaneta com a minha mão e puxando-a na minha direcção; ou posso fazer alguém saber uma certa coisa usando a minha boca para lho dizer. Quando produzo um certo efeito intencionalmente (por exemplo, abrir a porta) levando a cabo outra acção qualquer (por exemplo, puxar a porta na minha direcção), levar a cabo a primeira é realizar uma acção não básica. Ir a Londres, escrever um livro ou mesmo colocar um parafuso na parede, são acções não básicas que desempenho levando a cabo outras acções básicas. Quando realizo uma acção intencional qualquer, procuro com ela atingir um certo propósito — normalmente um propósito para além da mera realização da própria acção (abro uma porta de modo a ser capaz de sair da sala), mas por vezes trata-se de um propósito que consiste na realização da própria acção (como quando canto só por cantar).
Richard Swinburne
Trad. de Desidério Murcho et al.
Retirado de Será Que Deus Existe? (Lisboa: Gradiva, 1998), pp. 12-13.