O racionalista radical afirma que há um critério único, atemporal e universal com referência ao qual se podem avaliar os méritos relativos de teorias rivais. Por exemplo, um indutivista pode aceitar como o seu critério universal o grau de corroboração indutiva que uma teoria recebe dos factos aceites, ao passo que um falsificacionista pode basear o seu critério no grau de falsificabilidade de teorias não falsificadas. Sejam quais forem os detalhes da formulação do critério por um racionalista, uma característica importante é a sua universalidade e seu caráter não histórico. O critério universal será invocado quando se julgar os méritos relativos da física de Aristóteles e de Demócrito, a astronomia ptolemaica e a copernicana, a psicologia freudiana e a behaviorista ou o Big Bang e as teorias estacionárias do universo. O racionalista radical pensa que as decisões e as escolhas dos cientistas são guiadas pelo critério universal. O cientista racional rejeitará as teorias que deixem de lhe corresponder, e, ao escolher entre duas teorias rivais, escolherá aquela que melhor lhe corresponda. O racionalista típico acreditará que as teorias que se conformam às exigências do critério universal são verdadeiras, ou aproximadamente verdadeiras, ou provavelmente verdadeiras. […]
O racionalista acha a distinção entre a ciência e a não ciência fácil de compreender. São científicas apenas as teorias capazes de ser claramente avaliadas em termos do critério universal e que sobrevivem ao teste. É assim que um racionalista indutivista poderá decidir que a astrologia não é uma ciência por não ser derivada indutivamente dos factos da observação, enquanto um falsificacionista poderá decidir que o marxismo não é científico por não ser falsificável. O racionalista típico aceitará como evidente que se deve dar um alto valor ao conhecimento desenvolvido segundo o critério universal. Ainda mais se compreender o processo como meio de se chegar à verdade. A verdade, a racionalidade e a ciência, portanto, são vistas como intrinsecamente boas.
O relativista nega que haja um padrão de racionalidade universal não histórico, em relação ao qual se possa julgar que uma teoria é melhor que outra. Aquilo que é considerado melhor ou pior em relação às teorias científicas variará de indivíduo para indivíduo e de comunidade para comunidade. O objectivo da busca do conhecimento dependerá do que é importante ou daquilo que é valorizado pelo indivíduo ou comunidade em questão. Por exemplo, o controle material sobre a natureza receberá um alto estatuto entre as sociedades capitalistas do ocidente, tipicamente, mas receberá um baixo estatuto numa cultura em que o conhecimento é projectado para produzir sentimentos de contentamento ou de paz.
O afirmação do velho filósofo grego Protágoras "o homem é a medida de todas as coisas" expressa um relativismo quanto aos indivíduos, ao passo que o comentário de Kuhn, de que "não há padrão mais alto que o assentimento da comunidade relevante", expressa um relativismo em relação às comunidades. As caracterizações de progresso e as especificações de critérios para julgar os méritos das teorias serão sempre relativas ao indivíduo ou às comunidades que aderem a elas.
As decisões e as escolhas feitas por cientistas ou grupos de cientistas serão governadas por aquilo a que aqueles indivíduos ou grupos atribuem valor. Numa dada situação não há um critério universal que dite uma decisão logicamente convincente para o cientista "racional". Uma compreensão das escolhas feitas por um cientista específico requererá uma compreensão daquilo que o cientista valoriza e envolverá uma investigação psicológica, enquanto as escolhas feitas por uma comunidade dependerão daquilo que ela valoriza e uma compreensão destas escolhas envolverá uma investigação sociológica. O relato de Boris Hessen da adopção da física newtoniana no século XVII como uma resposta às necessidades tecnológicas da época pode ser lido como um relato relativista com relação às comunidades, enquanto a afirmação de Feyerabend, de que é a "ligação interna de todas as partes do sistema (copernicano) juntamente com a sua crença na natureza básica do movimento circular que faz Copémico dizer que o movimento da Terra é real", é um comentário coerente com um relativismo em relação aos indivíduos.
Visto que para o relativista os critérios para julgar os méritos das teorias dependerão dos valores ou dos interesses do indivíduo ou da comunidade que os nutre, a distinção entre a ciência e a não ciência variará de acordo com eles. Dessa forma, uma teoria das marés baseada na atracção da Lua constituía boa ciência para os newtonianos mas roçava o misticismo ocultista para Galileu, enquanto na sociedade contemporânea a teoria de Marx da mudança histórica é boa ciência para alguns e propaganda para outros. Para o relativista radical a relação entre ciência e não ciência torna-se muito mais arbitrária e menos importante do que o é para o racionalista. Um relativista negará a existência de uma categoria única, a "ciência", que é intrinsecamente superior a outras formas de conhecimento, embora muito possivelmente aconteça que indivíduos ou comunidades dêem alto valor àquilo a que geralmente se conhece como ciência. Se a "ciência" (o relativista pode muito bem estar inclinado a usar aspas) é altamente respeitada na nossa sociedade, isto deve então ser compreendido analisando-se a nossa sociedade, e não simplesmente analisando a natureza da ciência.
A. F. Chalmers
Adaptação de Vítor João Oliveira
Excerto de O Que é a Ciência, Afinal? (São Paulo: Brasiliense, 2000, pp. 137-40)