Quando o egoísmo afirma que todos os nossos desejos últimos se referem a nós mesmos, o que significa "últimos" e "referem-se a nós mesmos"?
Há algumas coisas que queremos para o nosso próprio bem; queremos outras apenas porque pensamos que nos vão trazer ganhos secundários. A conhecida relação meios/fim que liga um desejo a outro também permite que os desejos se encadeiem — a Sara pode querer guiar o seu carro porque quer ir à padaria, e pode querer ir à padaria porque quer comprar pão, etc. A relação crucial que precisamos de definir é a seguinte:
S quer m apenas como meio para atingir f se, e só se, S quer m, S quer f, e S quer m apenas porque acredita que ao obter m isso a ajudará a obter f.
Um desejo último é simplesmente um desejo que alguém tem por razões que ultrapassam o facto de o objecto desse desejo contribuir positivamente para alcançar outra coisa qualquer. Considere-se a dor. A razão mais óbvia para que as pessoas evitem a dor é simplesmente o facto de não gostarem de sentir dor. Evitar a dor é um dos nossos objectivos últimos. Contudo, bastantes pessoas percebem que a sensação de dor reduz a sua capacidade de concentração, pelo que podem, por vezes, tomar uma aspirina em parte porque querem remover o que provoca distracção. Isto mostra que as coisas que queremos como fins em si também as podemos querer por razões instrumentais.
Quando o egoísmo psicológico procura explicar por que razão uma pessoa ajuda outra, não basta mostrar que uma das razões para ajudar é o benefício próprio, porque isso é perfeitamente consistente com o facto de haver outra razão para ajudar que seja puramente altruísta. Simetricamente, para refutar o egoísmo não é necessário dar exemplos de ajuda em que apenas existam motivos que se refiram aos outros. Se por vezes as pessoas ajudam os outros por razões últimas que são tanto egoístas como altruístas, então o egoísmo psicológico é falso.
Tanto o egoísmo como o altruísmo requerem a distinção entre desejos que se referem ao próprio e desejos que se referem aos outros. Esta distinção deve ser entendida em termos do conteúdo proposicional do desejo. Se Adão quer a maçã, isto é uma elipse da afirmação de que Adão quer que seja verdade que ele tem a maçã. Este desejo refere-se puramente a si mesmo, já que o seu conteúdo proposicional contém referências a Adão e a nenhum outro agente; presumo que Adão não vê a maça como um agente. Pelo contrário, quando Eva quer que Adão tenha a maçã, esse desejo refere-se puramente ao outro; o seu conteúdo proposicional refere-se a outra pessoa, a Adão e não a Eva. O egoísmo afirma que todos os nossos desejos últimos têm por referencia nós mesmos; e o altruísmo afirma que alguns têm por referência os outros. O facto de Eva ter um desejo que se refere ao outro não é suficiente para refutar o egoísmo; temos de perguntar por que razão quer Eva que Adão tenha a maçã.
Uma versão especial de egoísmo é o hedonismo psicológico. O hedonista diz que os únicos desejos últimos que as pessoas têm são procurar o prazer e evitar a dor. Por vezes, o hedonismo é criticado por defender que o prazer é o único tipo de sensação — que o prazer que retiramos do sabor de um pêssego ou o prazer que retiramos de ver prosperar aqueles que amamos, de alguma forma se resumem ao mesmo. Contudo, esta crítica não se aplica ao hedonismo tal como o descrevi. O facto óbvio acerca desta teoria é a afirmação de que as pessoas são solipsistas da motivação, quer dizer, as únicas coisas com que se preocupam são os seus próprios estados de consciência. Os egoístas não precisam de ser hedonistas. Se as pessoas desejam a sua própria sobrevivência como um fim em si, podem ser egoístas, mas não são hedonistas.
Há desejos que nem se referem puramente a nós mesmos nem se referem puramente aos outros. Se a Filipa quer ser famosa, isso que dizer que quer que os outros saibam quem ela é. O conteúdo proposicional desse desejo envolve uma relação entre ela e os outros. Se a Filipa procura fama apenas porque pensa que dará prazer ou lucro, então ela pode ser egoísta (dependendo de quais sejam os seus desejos últimos). Mas e se ela quiser ser famosa como um fim em si? Não há razão para incluir essa possibilidade no egoísmo ou no altruísmo; incluir no egoísmo alguns desejos relacionais últimos, mas não incluir outros, corre o risco de tornar a teoria ad hoc ou confusa; o mesmo se aplica ao altruísmo. Assim, reconheçamos o relacionismo como uma possibilidade distinta de ambas as teorias.
A quarta possibilidade envolve desejos que não se referem a nós mesmos nem aos outros. O desejo de que um princípio moral geral seja defendido cai nesta categoria. Quando um utilitarista deseja a maximização do bem para o maior número, esse desejo é impessoal; abrange todos os seres sencientes, incluindo, presumivelmente, ele próprio, mas o conteúdo do desejo não o especifica nem a si nem aos outros. Por essa razão, sugiro que não se considere egoísta nem altruísta. Tal como acontece relativamente aos desejos relacionais, os defensores do egoísmo psicológico podem conceder que há desejos relativos à maioria dos princípios morais que não se referem a nós mesmos; a questão é saber se temos estes desejos instrumentalmente ou então se os temos como fins em si.
Caracterizado como sugeri, é óbvio que o truísmo de que as pessoas agem com base nos seus próprios desejos não implica o egoísmo, nem o truísmo de que procuram satisfazer os seus próprios desejos o implica. O facto do João agir com base nos seus desejos e não com base nos desejos do Joaquim, diz-nos apenas que desejos estão a trabalhar; mas nada nos diz sobre se os desejos últimos que estão na cabeça do João se referem ou não a si mesmo. E o facto de o João querer satisfazer os seus desejos significa apenas que ele quer que o seu conteúdo proposicional seja verdadeiro; o desejo do João de que chova amanhã será satisfeito se, e só se, chover amanhã. Se chover, o desejo será satisfeito, independentemente do João o saber. Querer que os nossos desejos sejam satisfeitos não é o mesmo que querer sentir a satisfação que, por vezes, acompanha a realização de um desejo.
O egoísmo é às vezes criticado por considerar demasiado calculistas actos espontâneos de ajuda. As pessoas que ajudam os outros em situações de emergência frequentemente afirmam que o fizeram "sem pensar". Contudo, é difícil considerar literalmente estes relatos quando os actos envolvem uma série precisa de acções complexas ajustadas ao fim aparente. Um nadador-salvador que resgata um nadador aflito é justamente visto como alguém capaz de definir claramente um objectivo e de identificar um conjunto de acções ajustadas a esse objectivo. O facto de não se envolver em cálculos ponderados e conscientes não prova a não ocorrência de um raciocínio meios/fim. Em qualquer caso, as acções acontecem de facto sem que a mediação dos desejos e crenças exceda o âmbito do egoísmo e do altruísmo. As pessoas mexem as pernas quando se bate nos seus joelhos com um martelo, mas isso não refuta qualquer teoria.
Uma crítica relacionada com esta é que o egoísmo pressupõe que as pessoas são mais racionais do que o que realmente são. Contudo, recorde-se que o egoísmo é apenas uma teoria acerca dos desejos últimos das pessoas. Como tal, nada nos diz sobre o modo como decidem agir com base nas suas crenças e desejos. Quem pressupõe que o egoísmo é verdadeiro também pressupõe muitas vezes que as pessoas são calculadoras racionais; contudo, as teorias não se refutam com base no princípio da culpa por associação.
Se o egoísmo defende que os desejos últimos se referem a nós mesmos, o que dizer da pessoa cujo desejo último é a auto-destruição? E se o altruísmo defende que alguns desejos últimos se referem aos outros, o que dizer de Iago, cujo desejo último é destruir Otelo? Seria chocante dizer que uma pessoa deprimida, que está empenhada em suicidar-se é egoísta, ou que Iago é altruísta. O que precisamos adicionar a ambas as teorias é a ideia do que é bom (ou aparentemente bom). Os egoístas procuram o seu próprio benefício; os altruístas querem que o bem dos outros. Apesar destes acréscimos às teorias as aproximar mais do uso comum dos termos "egoísmo" e "altruísmo", não afectam materialmente a tarefa substancial de determinar que teoria é verdadeira. O cerne do problema é dizer se todos os desejos últimos se referem a nós mesmos.
Alguns leitores podem considerar este problema fácil. Os indivíduos podem limitar-se a olhar para si próprios e determinar por introspecção quais são os seus desejos últimos. Talvez os defensores do egoísmo e os defensores do pluralismo da motivação tenham razão acerca de si mesmos, só que ambos os lados pecam quando procuram generalizar para lá dos seus próprios casos. Uma pressuposição implícita nas explorações filosóficas e psicológicas deste tópico é que as pessoas são basicamente idênticas. Se o egoísmo for falso, será falso para praticamente todos (exceptuando talvez os sociopatas). E se for verdadeiro, sê-lo-á por descrever uma característica básica do ser humano.
Contudo, o facto de os trabalhos anteriores de filosofia e de psicologia terem ignorado com frequência a possibilidade da variação individual, não é razão para integrar isso na nossa compreensão do problema. Por que razão não devemos então dizer que os defensores do egoísmo conhecem os seus corações e que os defensores do altruísmo conhecem os seus? A razão é que não há qualquer razão independente para pensar que o testemunho da introspecção é de confiança neste caso. A introspecção é enganadora e incompleta no que afirma sobre outros aspectos da nossa mente; ninguém ainda mostrou por que razão a mente tem de ser um livro aberto relativamente à questão dos motivos últimos. O problema, se puder ser resolvido, terá de o ser de outra forma.
Elliott Sober
Tradução e adaptação de Vítor João Oliveira
Retirado do artigo "Psychological Egoism", in The Blackwell Guide to Ethical Theory, org. Hugh LaFollette (Oxford: Blackwell, 2000, pp. 130-134.)